sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Frances Ha: quando crescer é abrir mão dos sonhos

Li hoje um texto publicado no Carta Capital, de Matheus Pichonelli, sobre o filme Frances Ha, que assisti num dia despretensioso de 2016, provavelmente. O filme deixou um quentinho melancólico no coração, bem refletidos no texto de Pichonelli. Resolvi registrá-lo aqui, por entendê-lo, pessoalmente, como um retrato atual dos nostálgicos pensamentos da adultecência que veio e vem:

Não é difícil entender por que Frances Ha, filme Noah Baumbach que está no catálogo da Netflix, arrebatou tantas mentes e corações. Frances, personagem de Greta Gerwig, é a cara cuspida, amassada e insone de uma juventude desencontrada em seu próprio tempo. Uma juventude que estica até onde pode os vínculos, vícios e sonhos adolescentes para não se dobrar a uma vida de desencantos, na qual crescer é, mais que uma ordem, um convite a abrir mão dos sonhos – ou a encaixá-los em uma realidade menos generosa.

De Frances, uma dançarina meio profissional, meio amadora, todo mundo tem um pouco. Ou já teve. Ou conhece alguém que tem ou teve. É a menina estranha da ala dos sonhadores. Que, a certa altura da vida, decidiu que o dinheiro importava menos do que a vocação para ser livre, mesmo que ser livre fosse apenas ter em mãos um botão vermelho que permitisse dinamitar tudo em segundos e começar tudo de novo.

Ela já saiu da casa dos pais. Já sobreviveu à cidade grande. Já sobreviveu à faculdade. Já sabe o que é passar aperto para pagar as contas. Já transportou os vínculos afetivos para a rede de amigos, a “família que escolheu para ela”. Já se dedicou, já estudou, já se esforçou, já se cansou – e não chegou onde queria.

Frances senta com as pernas dobradas, caminha distraída, tropeçando, e, por excesso ou ausência de timidez, diz frases constrangedoras em momentos inoportunos. Não é novata nem veterana. Nem bonita nem feia. Nem santa nem junk. Nem vaidosa nem relapsa. Nem solta nem comprometida. Nem alegre nem triste. Nem velha nem nova. Nem consagrada nem fracassada. Nem só confusa nem só determinada. Está sempre no meio do caminho, e sempre diante de notícias avisando que “não vai ser desta vez”.


À medida que envelhece, as decepções começam a estourar uma a uma em seu rosto machucado de tanto cutucar uma espinha insistente, como uma herança de um período de irresponsabilidades toleradas.

Nos jantares com amigos bem-sucedidos (os que optaram por ganhar dinheiro e ter uma vida burocrática, que ela despreza), Frances se esconde, se constrange, se encolhe. Quando não sabe o que dizer, bebe; quando bebe, se solta; quando se solta, passa a dizer frases desconexas, que brotam do nada e chegam a lugar algum; como consequência, chega em casa e vê o mundo rodopiar ao deitar na cama – como ensinaram certa vez, nessas horas o melhor a fazer é manter a cabeça para cima e os pés apoiados no chão, como um antigo refrão sobre mentes quietas, espinhas eretas e corações tranquilos. Porque é preciso ser assim e assado, e os pés no chão são uma garantia mínima de sobriedade para que o mundo não desmorone. Não tão de repente.

Durante boa parte do filme, ficamos a imaginar quantos anos Frances teria (me permitam não contar).

Há momentos em que imaginamos que ela já passou dos 30.

Em outros, que anda na primeira metade dos 20. Não é por menos.

Nessa transição prorrogada, que para alguns chega a levar uma vida inteira, desenvolvemos comportamentos ambíguos que nos fazem tropeçar pela manhã com hábitos e questionamentos dos mais juvenis (ela adora brincar de “lutinha” no parque e fazer troça com as câmeras do metrô) e dormir com o cansaço de um ancião.

Até aí, (quase) nada de novo.

No início dos anos 1990, o maior fenômeno da tevê americana era um seriado que teve a sacada de levar para a tela, durante longos dez anos, o retrato de uma geração desvinculada dos cuidados dos pais, mas que entrava na vida adulta com uma camiseta adolescente, com vínculos profissionais afrouxados (para quatro dos seis personagens) e apartamentos e contas divididas entre amigos para se bancar e poder ir ao cinema, rir e tomar um vinho barato de vez em quando.

Por ironia, o deboche hilário de “Friends” se tornou, ao longo das temporadas, um abacaxi para produtores, fãs, personagens e atores presos aos personagens: como manter o espírito (o espírito jovem e despojado do programa-piloto) quando a vida adulta, regrada e menos permissiva, bater à porta?

Conforme eles envelheciam, as brincadeiras, os porres e as escolhas erradas começavam a soar ridículos. Salvo uma piada e outra intercalada por períodos cada vez mais esparsos, o seriado tinha como pano de fundo um grande drama: o momento de fechar as portas de um tempo duro mas festivo, localizado em algum ponto entre a irresponsabilidade juvenil e a parcimônia adulta, para que cada um tocasse a vida por si e se dedicasse, como se esperava deles, ao casamento (os que casaram), aos filhos (os que tiveram), aos empregos (cada vez mais arraigados).

Frances Ha, de certa forma, joga para os tempos atuais essa república do seriado, mas com um tom assumidamente melancólico ao passar para a personagem principal a missão de ser a última a apagar a luz (em tempo: o filme é rodado em preto e branco).

Frances é aquela amiga, ou amigo, que apostou todas as fichas em uma festa que não tinha hora para acabar e acabou. Que viu, um por um, os amigos tomando decisões nas quais nem sempre ela fazia parte e demorou a perceber que este era um caminho natural, e não uma vingança de Deus, dos homens ou da natureza.

Que, quando a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, correu para aumentar o som, ainda com o chapéu de festa na cabeça, os dedos indicadores para cima, e implorou, em vão: “fica, gente, vai ter bolo”. Depois, apelou para a chantagem: “Como assim você vai me deixar?”; “Como assim você vai se casar com este idiota?”; “Como assim você não quer passar a velhice ao meu lado jogando milho aos pombos?”.

Pensando bem, o filme é menos o retrato de um tempo de desapego (e das consequências deste desapego) material do que um filme sobre a amizade, e sobre o processo natural de rompimentos com uma fase que, como uma antiga farra de faculdade, não tem hora para terminar, mas é certo que um dia terá fim.

Originalmente publicado no site da CartaCapital

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Carta à Penélope e aos sujeitos que a abraçam

Foto: Jacqueline Lisboa
Minha filha (eu tenho uma filha, que loko mano) completará 2 anos no próximo mês, e já comecei a nostalgiar.

Nesse processo, quis dividir aqui a cartinha que li pra ela em seu primeiro parabéns, lá em março de 2016.

Foi um dia muito especial e chuvoso, montado por mim e pelo pai dela após um mês de recorta e cola, onde recebemos nossa família e alguns poucos amigos, que compartilharam com a gente do momento emocionanthy.

26/03/2016
 
“Nós mesmos, eis a grande questão da viagem. Nós mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas, em realidade, só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre é suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma existência inteira, às vezes. Quantos desvios e por quantos lugares antes de nos sabermos...”, diria Onfray.

Eu e seu pai demos mais de 30 voltas ao nosso mundo. Conhecemos amigos, montanhas nevadas, felinos fofos, plantas esquisitas, vulcões, alho assado e até o mar Egeu. Nada nos trouxe tão a nós mesmos como você. E, em vários níveis, também nos trouxeram o espelho cada um dos que estão aqui presentes, hoje comemorando com a gente sua primeira volta ao seu próprio mundo.

Sua volta ao mundo, filha. Mundo grande, que exige da gente alguma fé, sorriso para sorrir e fazer sorrir, ombro pra acolher o chorar – inclusive o teu próprio chorar –, e alguma força pra seguir no ciclo quase eterno entre o cair e o levantar. É um ciclo dado, a vida é assim. E, nela, o tempo é amigo, a paciência é o caminho e a tolerância é a resposta. Sigo pensando em seu futuro e desejando boas estradas e boas vindas por onde quer que você chegue.

Hoje amanheci querendo gritar pro mundo que te seja gentil. Lembrei do que gostaria de te dizer, quando você tiver idade x. Queria dizer pra ir por aqui, e não por ali. Dizer-te tudo o que eu queria que escutasse, e que meus pais  tentaram me dizer. Em resposta a eles, na época, citei José Régio: “não sei por onde eu vou, não sei para onde vou, só sei que não vou por aí!”.

Será que você me dirá o mesmo? Escolhi imaginar que talvez sim, já que não controlamos nada. E, se assim for, antes disso, tomo minha chance de registrar tudo o que eu pensei em te dizer:

Pensei: Coragem, Penélope! Que suas estradas sejam cheias de verdade, experiências, aventuras e também tranquilidade. Que a ansiedade não te tome e ao seu tempo. Que, quando ela vier, você possa se lembrar que não controlamos nada e respirar. Que você ame muito a si mesma e ao outro, exatamente como você é, e como eles são. Seu corpo é seu maior instrumento em vida. Ame cada parte dele. Celebre-o!

Consciência. Consciência para manter-se segura em montanhas perigosas. Olhe bem por onde anda, não aceite doces de estranhos.

Seja gentil. De verdade.
Proteja quem não tem proteção.
Cuide de quem precisa de cuidado.
Cuide de você, antes.

Eu queria mesmo é te citar uma palavrinha do Bukowski, mas achei inapropriado para a ocasião. Então vou direto ao ponto: quando tudo der errado e o pulmão falhar, recorde que “por mais que você não queira, o ar entra e sai; o sangue circula, o coração continua batendo; as pálpebras abrem; os pássaros, desaforados, insistem em cantar”. Li essa frase em um site que falava sobre uma moça chamada Renata que descobria a expressão Ubunti. Significa “eu vivo em você, você vive em mim”. Bonito, né? É assim que sempre será entre nós, até mesmo quando não existirmos mais.
Foto: Jacqueline Lisboa
E, bem, hoje é dia de festa. Eu esperei chuva. Será que choveu? Os rostos de quem esteve com a gente durante esse um ano enquanto pais estão aqui. Eles nos olham enquanto digo tudo isso em voz alta, talvez já “alta”, e, como já tem algum tempo que estou falando, sinto que devo ser menos preelixa.

Vou fechar:
Parabéns, minha peruaninha, pelo seu primeiro aninho de vida. Foi o ano mais intenso, insano e maravilhoso da minha vida e eu sou muito grata pela tua vinda. Passou rápido, já sinto saudades do ontem, e sei que o amanhã vem logo. Que venha. E que sejamos teu abraço, teu porto, tua ponte, teu lar. Viva muito, viva pra sempre.

Mamãe Pree Leonel