sábado, 18 de abril de 2015

Estreia da Penélope

*Relato de parto

Às 3h40 do dia 25 de março, acordei com uma contração dolorida. Durante a gravidez, sentimos o que chamamos de "contrações de treinamento", que são, dizem, indolores. Era, então, novidade que elas viessem  doloridas, mas pensei que se tratava de mais um novo desconforto noturno comum de final de gravidez.

Aproveitei pra fazer xixi e voltei pra cama.

Penélope estava prestes a chegar, algo me dizia que a data de parto prevista seria bem pontual – mas, outra parte de mim, não. Pelo sim e pelo não, entendi que eu deveria mesmo é aproveitar cada dia final da gravidez conhecendo novos ambientes gastronômicos e caindo de boca nos waffles de canela da Camom

Mas veio a segunda contração dolorida. E a terceira. E a vontade de evacuar naquele horário estranho. Coração fez tumtumtum, algo tava como os livros diziam. Comecei a anotar a duração entre as contrações em uma agenda do Victor. Vinham de 20 em 20 minutos, o que significava frequência, o que significava BINGO! ;)

Já ciente de que Penny estava mesmo querendo nascer, tentei voltar a dormir, poupar energia pro que viria, mas a barriga pesava muito, as dores me acendiam, acabei não conseguindo. Vic dormiu e eu, muito calma, me joguei num banho quente e bem demorado e até consegui fazer uma depilação meia boca.

Preparei um cantinho na varanda/escritório, sentei na poltrona com um edredom, fechei as cortinas e dormi. Acordava a cada contração, que era bem suportável e rápida até aí, e dormia de novo.

Antes, coloquei o lépitopi nas coxas, fiz uma transação bancária, mandei uns e-mails.  Deixei de sobreaviso doula, obstetra, mãe.  Me emocionei ao avisar a senhora minha mãe. Ela tb. Listei umas coisas pra ela trazer. Dormi, dormi.

Ela chegou às 11h e eu já contava 7 horas de pródomos. Ela chegou carregando mil coisas, inclusive itens artesanais pra improvisar um treco daqueles que penduramos na porta da maternidade (e que eu não providenciei por achar bobagem). Passaria grande parte do TP em casa, não receberia visitas logo depois do nascimento, não fazia sentido ter um treco desses, mas ok.

Mami chegou empolgada, eu me senti levemente pressionada pela excitação dela e isso gerou um stop nas contrações. DAMN IT. Fiquei decepcionada.

Teria sido apenas um alarme falso? Tudo parou e agora só quando os deuses quiserem? Oh, no.

Quase três horas depois, após almoço, massagens nas pernas e mordidão no bolo de laranja com cobertura de leite condensado e canela da dona Clarice, as contrações voltaram.

Não apenas voltaram como voltaram mais fortes. A partir das 14h, vinham de 10 em 10 minutos, intensas. Eu começava a buscar a respiração pra aliviar. Às 16h, a coisa começou a apertar e as dores foram ficando bem monstrinhas. Às 17h eu comecei a me contorcer. Fui tomar outro banho, o que pareceu acelerar as contrações de 10 pra 7 em 7 minutos. Me recolhi no quarto, quis ficar só.

Meu pai e irmão apareceram, o que eu não queria, porque não me sentia a vontade com a ideia do meu pai, principalmente, me vendo “sofrer”. Ele parece durão, mas é coração mole, e poderia me receitar uma novalgina no desespero. Er.

Mesmo assim, ele foi lá no quarto marcar presença, me viu mordendo um travesseiro, tentando segurar o grito perto dele. Não trocamos uma palavra, ele entendeu tudo. Voltou pra sala.

Me irritei com a movimentação que eu ouvia, chamei minha mãe, pedi que todos fossem embora pra que eu pudesse me sentir mais à vontade e focar. Sem foco, a dor vinha muito forte.

Às 18h parei com o whatsapp e liguei pra minha doula, Elisa Lorena, pessoa super que topou me doular meses antes, no início da minha gravidez. Eu já alucinava de dor e pedi que ela me encontrasse direto na maternidade, pois eu achava que tava acontecendo rápido demais.

Daí começou a divina comédia pra sair de casa. Sai mãe pra buscar o próprio carro no estacionamento lááá fora, sem avisar que era lááá fora. Fica marido preparando o que levar. Ele dá o sinal de que tudo está pronto e você, tonta de dor, toma fôlego enquanto a próxima contração não vem e tenta encontrar um chinelo para descer o elevador.

Cabelos loucos, roupa horrorosa, quem liga? Meus planos de parir linda já eram. Entramos no elevador. Eu suava frio, fomos parar na garagem, no subsolo. MAS, PERA. O carro da minha mãe estaria no subsolo ou fora do prédio? Não há tempo pra pensar. Victor sai do elevador pra procurar a sogra na garagem. A grávida fica no elevador sozinha, o elevador se fecha e vai pro térreo. Rezo pra que nenhum vizinho entre no elevador e me veja naquele estado, ou envolveria o SAMU no cenário, certeza.

O elevador se abre. Eu o travo enquanto a contração não passa, e, assim que passa, sacudo a cabeleira e sigo cega e contorcida de dor até a frente do prédio, onde acho que minha mãe estará nos aguardando. Me jogo no banco de passageiros e tenho outra contração enquanto o marido chega na sequencia e se joga junto.

E as coisas! Tem as coisas.  Durante um trabalho de parto ativo vc não tem lá muita condição de pensar, então espera que pensem por você. Mas todo mundo fica preocupado porque sabe que sua dor é tamanha que vc não tem condições de pensar, então param de pensar também.

Chegamos à maternidade sem minha bolsa e documentos, inclusive carteirinha do plano de saúde, que pagaria a internação. Sem falar da pasta com papeis que documentavam toda a gravidez e tudo sobre a saúde da Penélope. Er. Ao menos lembramos dos chocolates e da malinha cheia de roupinhas da Penny. <3

Internação resolvida, fomos pra sala de parto humanizado, eu, Vic, mãe, obstetra Ju e Elisa Doula.

Lá, eu já não sei dizer bem o que aconteceu. Fiz um vídeo que está aqui [pergunte-me a senha aqui]. Nele, registro poucas cenas, mas que marcaram e me lembram mais ou menos algumas sensações e momentos. Tudo foi gradualmente sendo apagado da minha memória diariamente e tive que fazer algum exercício para lembrar.

Foto de Elisa Lorena Doula

Hoje, 23 dias após o parto, lembro-me de terem me oferecido chocolate e de eu ter sentido ânsias de vômito ao mastigá-lo. Lembro que quis muita água, quando lembrava da sede. Lembro que minha doula preparou uma sala linda, que eu não tinha planejado antes. A água que caia na banheira estava quente. As luzes, apagadas; a banqueta, preparada; as velas, acesas; a música era instrumental e zen.

Eu vinha e saia de mim. Lembro de ter entrado na banheira e ter sentido muita, muita dor. Saí dela em menos de 5 minutos e, com isso, descartei o sonho de ter minha filha na água.

Lembro de ter ficado parte do parto em pé, segurando todo o meu corpo pelo braço, em uma barra de ferro. Lembro que, ao olhar pra baixo, via as mãos de alguém limparem o sangue que escorria sem parar entre as minhas pernas enquanto eu tratava de vocalizar a dor. Eram as mãos da minha mãe. Eu via o chão, onde gotejavam meu suor, meus líquidos, meu sangue. Tava escuro, era sombrio, mas não era mórbido. Era doloroso e era intenso. Eu sumia, as pessoas sumiam. E tudo voltava, eu voltava, elas voltavam. E sumíamos de novo.

Lembro de ter feito alguma piada em algum momento lúcido, arrancado gargalhadas de alguéns. Lembro do Victor me dizendo “vai, faz força, faz força”, antes mesmo da obstetra me pedir pra fazer força, e de eu ter pensado em dizer-lhe um palavrão, porque eu não queria fazer força coisa nenhuma.

Lembro de, já com 9 centímetros de dilatação, ter me sentido verdadeiramente cansada, dolorida, “abandonada” ao tempo. A dor era mais forte do que os relatos que eu tinha lido diziam, eu achei que era hora de pedir a temida analgesia, que nunca veio. Perdi um pouco do foco, me travei, me senti infantilizada, frágil, mas o pensamento na filhota e o apoio do time montado me permitiram fluir de novo.

Travei também quando percebi que chegava a hora do círculo de fogo, pois a dor que viria já se anunciava. Até entender que, novamente, deveria fluir, e que tudo dependia da minha entrega. Chamei pela Penélope novamente e as coisas aconteceram.

Lembro da Elisa compreendendo minha dor, sem dizer coisas como "já passou, já passou", mas sim permissivas, que me permitiam o grito, o choro. Parece técnica psicológica simples, mas tinha poder grande de me acalmar. Lembro de como eu me apoiava nela com força. Da Juliana checando os batimentos da Penny e sendo muito sincera e positiva sobre o avanço do trabalho de parto. Da minha mãe preocupada, mas forte e prestativa. Do Victor me segurando firme, por trás da banqueta, me apoiando até o final, o que rendeu a ele uma bela dor de coluna. Lembro de ter ouvido seu choro forte quando sua filha saiu de mim. Lembro de ter dado a luz na banqueta, de cócoras. Lembro da obstetra  Juliana sentada no chão, tentando segurar a Penny pra que ela não caísse nele.

A dor foi embora assim que pari, e eu não entendi. Acho que fiquei um pouco em choque, na minha cabeça lembro de ter ouvido um silêncio interno grande. O único barulho era o do nascimento dela. Não esqueço do barulho dela saindo. Do círculo de fogo, da ardência até o alívio imediato, molhado, melecado, expelido. O barulho do expulsivo. Não esqueço. Barulho do alívio. Barulho da Penny. 

Flashes. Lembro de flashes.

Ela nasceu às 1h27am. Lembro que minha mãe a entregou pra mim. Ela chegou aos meus braços e a luz a tornava um pouco azul. Eu já a conhecia, pensei. Ela veio perfeita e grande (49 cm e 3,275 quilos). Eu a chamei de filha e reconheci seus traços peruanos/japoneses, com os olhinhos puxados do Victor. Me preocupei pois ela chorava rouco e temi que algo bloqueasse seu ar.

Foto de Elisa Lorena Doula
Eu estava calma, me sentindo aérea. Eu tremi por um bom tempo. Ela não conseguia sugar o peito ainda. Passei um batom, tirei umas fotos tentando divar, but not.

Depois de um tempo namorando Penélope, Victor cortou o cordão. Nos levaram pra uma maca, onde pari e nos despedimos da placenta.

Eu, Penny, Victor e minha mãe fomos juntos pro quarto, tomei um banho, comi, e dormi com ela ao meu ladinho, chupetando meu peito direito, e foi a melhor sensação do mundo.

Há quem não acredite, mas eu queria voltar àquele momento de novo. Passaria de novo por tudo pra sentir tudo aquilo de novo.

----

#A escolha de parir

Encontrar um obstetra que faça um parto normal, pelo plano de saúde, em Brasília, foi papo descartado logo no início. Só lidei com quem me olhava torto por querer um parto onde eu fosse a protagonista. E ainda encontrei quem mandasse eu me livrar dos meus gatos durante a gravidez.

Mas não quebrei muito a cabeça. Tive a sorte de ter algumas queridas na manga já na militância pelo parto humanizado, e elas me encheram de informações. Entre elas, Bia Girafa, da Livre Maternagem, e a Joo. Acabei não contratando nenhuma equipe de PD indicada por elas, não me sentia preparada financeiramente (ou psicologicamente) pra um parto domiciliar. Também não estava totalmente tranquila em fazer o parto na Casa de Parto São Sebastião, com todas as condições que ela exigia. Mas continuei a busca por um parto humanizado, até que recebi indicação da Juliana Costa Rezende, que atendia na Maternidade Brasília. Foi indicação de uma amiga, também grávida na época, a querida Natália Carvalho.

Agora eu precisava de uma doula. E encontrei a Elisa.

Aproveitei as dicas de livros da Bia, me enchi de informações do blog da Adele e em tantos outros sites, visitei a roda de apoio às grávidas do HUB, fui a alguns encontros na Nossa Casa, que me enchiam de força e certeza de que estava no caminho certo, e foi isso aí.

---

#Agradecimentos

Vale falar sobre minha obstetra, Juliana Costa, que me atendeu durante todo o pré-natal com cuidado, alegria, e competência. Atendeu a todos os meus whatsapps ansiosos. Me preparou com firmeza e seriedade pra ter um parto natural sem complicações, já que era a minha escolha. Respeitou todas as demais, inclusive meu plano de parto. Foi até o final comigo. Pra sempre vamos lembrar. <3

Da Elisa Lorena também preciso falar. Doula mais que competente, firme e humana. Durante o parto, me entendeu, me acolheu, me fortaleceu. Antes dele, me tirou várias dúvidas, tentou me acompanhar como pôde e inclusive me ajudou, com exercícios, a virar Penny, que estava pélvica às 34 semanas de gestação. Meus agradecimentos eternos. Que possamos tomar muito suco de maracujá em breve, juntas.

Minha mãe: não achei que eu fosse me sentir à vontade com ela me vendo gritar de dor. Mas me senti. E me senti cuidada, me senti em casa. Com ela lá, me senti filha. Pra logo me transformar mãe. Sei que ela também viveu uma grande experiência nesse dia, o dia em que se tornou avó, o dia em que viu sua filha se tornar mãe em um momento tão bonito, cheio de respeito. Sei que sempre lembraremos desse momento juntas, virou uma coisa nossa.

Meu peruano: por cada palavra de suporte e apoio emocional, meu muito obrigada. Por ter emprestado suas costas, mãos e voz para me apoiar. Por ter feito o que pôde por mim, e por ter tornado aquele um momento quentinho e cheio de amor. Por ter recebido nossa filha com aquele choro de criança mais forte que o dela, emocionando a todos e a mim.

Taí meu registro pra posteridade.

Um comentário: