sábado, 22 de novembro de 2014

Engravidando em Pree land

Daí que eu fiquei grávida um dia, aos 31 anos. A notícia chegou trazendo uma pancada de informações acerca de um universo sobre o qual eu nunca tive o menor interesse antes. 

Entre as notícias que vieram junto, a de que, mesmo sem saber cuidar  lá essas coisas de mim mesma e das plantas, eu estaria, em 2015, cuidando de outro ser humano, que era mini, quebrável e fazia xixi e cocô várias vezes por dia.

Os caminhos iniciais dessa história estão nesse link aqui. Nesse link aí eu conto uma história bem pessoal que era pra ser mantida entre os meus, mas revi o lero, pq pode servir a alguma mãe no mesmo ponto que eu, à época. 

O mesmo ponto era aquele onde você sabe que uma huge mudança tá pronta pra acontecer, mas ainda tá tentando entender como te enviaram aquela responsabilidade após você ter acabado de matar a sua samambaia numa transfusão de terra mal sucedida.

E, se querem saber a continuação daquilo tudo, é que um mês e meio de cama deixam muitos de nós loucos. Eu estava enlouquecendo e qualquer coisa que eu disser nos próximos três parágrafos serão reflexo do trauma que foi viver uma gravidez fisiologicamente nos primeiros 3 meses.

Foi um início de risco, com indicação de repouso total e aplicação de mais progesterona no meu corpinho, o que fez tudo parecer tragicômico. Não me lembro de terem me avisado dos efeitos daquelas cápsulas, e que os enjoos matinais seriam vespertinos e noturnos também. Todos os dias.  Havia uma leve sensação de que aquilo era pesado demais, e de que não iria passar. Eu olhava pro peruano com olhar de gato de botas, pedindo socorro, mas nem ele ou alguém poderiam fazer algo por mim, a não ser coçarem as minhas costas.

Então ganhei direitos. Uma grávida ganha (ou deveria ganhar) vários deles, você sabe: de chorar demais, de se sentir desconfortável e verbalizar sem parecer a chata do pedaço, ou de ironicamente gargalhar o melhor sorriso do universo, de ir do céu a terra em dois segundos sem diagnósticos bipolares. E de participar das filas preferenciais, é claro. 

Se eu pensava que nove meses eram coisa demais pra todo aquele caos fisiológico, comecei a imaginar diferente com o passar deles. Percebi que talvez fosse tempo micro pro preparo daquilo que vem, e que a literatura online, quase sempre um tanto quanto comercial e infantilizada, não quer aprofundar.

A tal transição para um outro universo. A começar pela solitude desse novo mundo. Sim, a gravidez pode ser um pouco solitária pra muitas gestantes. A começar por aquela coisa, assim, mais superficial da questão, de que todos seus amigos tão no bar bebendo e xingando o Bolsonaro e elas não, pq tão em casa, que é o único lugar onde elas querem estar.

Quando resolvem que vão sair da concha e enfrentar o sono pra socializar, é fantástico.  E, quando saem, viram aquele ente. Aquele ente ali, na bolha, do qual os fumantes não chegam perto. Se todos seus amigos são fumantes, então, melhora. E também significa que o ente escolheu o grupo de amigos errado, é claro, mas isso é papo pra outro post.

Por não me considerar nada maternal antes, nunca pensei muito sobre filhos. Mas, quando pensava, achava que, se engravidasse, seria uma grávida hiper cool com um corte de cabelo cool, uma calça de grávida arrojada e uma disposição de ferro, tanto pro trabalho, quanto pra continuar uma vida boêmia entre amigos, mesmo que tomando suquinho no canudo.

Superei. Meus amigos também. Alguns ainda não compreendem meu sumiço noturno, mas é só eu explicar inserindo palavras como “azia” e “sono” que fica tudo claro.

Minha rotina virou um trem meio rosa pêra claro. Agora não faço corrida, faço hidroginástica pra gestantes. Não trabalho insanamente até às 3a.m, mas acordo aí pra fazer xixi. Não bebo vinho, mas água tônica. Não leio livros legais, mas livros bem chatos pra gestantes chatas (ok, mentira, achei preciosidades, perguntem-me aqui).

Parece, mas não é tão boring assim. Os chutes da pessoa que vai nascer começam a te fazer entender a dimensão da coisa que tá prestes a acontecer. Dimensão esta que, de repente, te parece muito mais incrível e cool do que assustadora. E, tb de repente, você pode ser quase absolutamente catapultada a este novo momento tão divisor, mega se tornando outro ser também, se descolando do anterior, conforme os meses passam, esperando novo contato fofo extra-uterino. 

Top 4 - pessoas com quem adoro ou consigo interagir após gravidez:

1. Meu companheiro, pq ele é legal.
2. Minha mãe, pq ela é legal e entende de enxoval, eu não;
3. Meus gatos, pq eles não dão pitaco;
4. Mulheres grávidas, pq elas são... grávidas.

Sim. Gestantes passaram a ser uma coisa assim incrível na minha vida. Primeiro que eu as respeito muito mais. Inclusive, respeite também. Inclusive, antes de dizer pra uma grávida que “gravidez não é doença”, pergunte a ela como ela tem se sentido. Ela pode andar se sentido bem malzinha. E ainda ter que corresponder à sua expectativa monocromática, fora às da sociedade inteira, tanto no ambiente de trabalho quanto no social particular.

E ainda ouvir gente chata pra caramba, não grávida ou hiper grávida, dando pitaco pra caramba e se sentindo conhecedora de tudo o que rola com você, sendo que cada experiência é tão única. Ao mesmo tempo em que conto a minha e de muitas, existe um universo lá fora de grávidas que tiveram um começo muito mais legal ou muito mais difícil que o meu.

Simbora.

Agora que estou bem, o sorriso vem fácil à cara, e eu já me sinto uma força da natureza incrível produzindo seres para o universo, falta pouca coisa pra entender até os meses finais da gestação. Tipo decidir finalmente onde e como quero que o parto aconteça, demandas finais de quarto e enxoval, e onde arrumar dinheiro pra pagar a faculdade dela. Coisa pouca.

A prioridade é entender o que é um pagão, como usar um cueiro, e que tamanho tem um bebê de 3 meses de idade. Beijos.

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