quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Crônicas bolivianas - Chapter I

Funcionava assim: ele trabalhava e segurava as contas da casa sozinho enquanto eu me afastava do trabalho por motivos de estresse e loucura. Eu voltava a cozinhar, visitava mamãe, escrevia crônicas, assistia a todos os seriados do Netflix e lia toda a seção de biografias sobre a segunda guerra mundial da livraria cultura.

Foi um mês realmente memorável, até que, após ser sorteada para participar de uma mesa de julgamento de planos de comunicação numa licitação (e ter topado e acabado com aquilo que seriam meses sabáticos num julgamento técnico esquisito, de estresse e martírio), eu e ele decidimos acabar de vez com meu descanso e nossos últimos dólares numa viagem à Bolívia.

Comunicamos às nossas mães cristãs que não iríamos passar o aniversário do nascimento de Jesus Cristo com elas, montamos um roteiro despropositado e nada ambicioso em algumas horas, encontramos uma passagem suspeitosamente barata numa companhia aérea boliviana pertencente à Evo Morales, torcemos para que o avião não fosse daqueles lotes de 1979, e seguimos com o projeto.

Cheguei sã e salva em Cochabamba, onde esperamos duas horas em duas filas engraçadas até seguirmos numa conexão a La Paz, onde chegamos no início da noite do mesmo dia.
 Toda a Cochabamba dando as boas vindas pra gente

Nos hospedamos em um hostel chamado Loki, em Loayza street. Na noite de natal entendi porque se chamava assim: à meia noite os gringos rebolavam nus em cima do balcão do bar com chapéus de papai noel, enquanto, em Brasília, meus pais comiam salpicão de natal e abriam espumantes de maçã.

Nosso primeiro passeio foi a um sítio arqueológico pré-colombiano chamado Tiwanaku. O Vic é meio fissurinha com o império Inca, e é claro que não me opus em passar o dia observando os monólitos e correndo atrás das vendedoras ambulantes locais em busca do meu relógio cor-de-rosa-féshion que caiu e se perdeu em algum lugar na lama por ali.

Consegui encontrar um pedaço de papel cor-de-rosa em chão Tiwanaku e saí abanando o mesmo para que as crianças realmente entendessem a cor e me ajudassem a procurá-lo, mas elas me olhavam com pena.
Em Tiwanaku me conformando com o sumiço do relógio
Após a decepção da primeira perda em espaço Boliviano, ganhei omeletes de almoço e uma sopa de quinua mara e fiquei mais conformada. Ao chegar no albergue, lá estava meu relógio, na gaveta do hostel. 

Nesta noite, após recuperar minha dignidade perante meu marido, que também havia me ajudado com a busca do relógio, conhecemos um restaurante italiano pertencente a um maluco belga que cozinhava bem por demais - e pra lá seguimos todas as vezes em que os condimentos bolivianos recomeçavam a revirar nossos estômagos.

Saímos de La Paz e seguimos para Copacabana, bem ao norte do país, após a noite de natal. Foram quatro horas de ônibus, vinte minutos de barquinho enquanto o ônibus atravessava de balsa e mais uma hora em outro barquinho pra chegar na chamada Ilha do Sol.

O lugar era paradisíaco e isolado e nossa pousada ficava em algum lugar em cima da montanha. Entenda-se por “em cima da montanha” um local alcançado após a subida de uma escadaria linda e maldosa, digna de filmes egípcios e vista pro Titicaca.  Dei graças por ter parado de fumar em algum momento de 2012, agarrei minha força de vontade e subi, com pausas cronometradas para o respiro a 3.820 metros acima do nível do mar.

Vislumbrando a cara do Vic ao vislumbrar 1km e meio de subida
Havia um menino fofo de mais ou menos oito anos que nos seguia e nos chamava com as mãos morro acima, como que tentando nos ajudar. Ele era mudo, mas comunicativo, e queria nos guiar, mesmo sem ter ouvido de nós alguma solicitação. Por fim, confiamos mais nele, enquanto morador da ilha, do que em nosso instinto e mapa impresso. 

Quando percebemos que ele havia nos levado para sua própria casa (mas antes que eu começasse a gritar pensando que estávamos sendo seqüestrados e viveríamos escravizados nos Andes extraindo minerais), apareceu um senhor que se desculpou, disse que o menino tinha "problemas" e que, na verdade, a pousada ficava do outro lado da ilha, mais abaixo.

Suando e incrédulos, olhamos pro menino interrogativos antes de continuarmos nossa caminhada abaixo, pois ele levantava a mãozinha direita, como que pedindo algo. Demorou pouco menos de 2 segundos até entendermos que deveríamos pagar pelo serviço que ele havia acabado de prestar.  Olhamos para o padre mais interrogativos ainda, que nos deu um sorriso maroto e piscou os olhos indicando que sim, deveríamos pagar o menino.

Ah, tá, entendi.

Com 8 bolivianos a menos no bolso, e já pensando em helicópteros ou na incrível utilidade de um teleférico, descemos e subimos outro tanto da montanha, até, por fim, encontramos a pousada Inka Pacha, que era administrada por nativos que falavam muito calmo, usavam tranças e me faziam acreditar que tudo estava em câmera lenta.

Encontramos, por sorte, no quarto, um ponto de energia para recarregar a câmera. Haviam também aranhas esquisitas no banheiro. Não havia barulho, a não ser o do vento e pássaros. Eu estava realmente isolada de tudo. A princípio, fiquei inquieta com aquele absurdo, mas depois entendi e relaxei: a vida era bonita, a vista era incrível, o lugar era perfeito e eu estava no lugar certo.

Olhamos pra janela até ficarmos cegos com a beleza do nevado Illampu encontrando o Titicaca. Apesar do sol, fazia muito frio e os cobertores eram nossos melhores amigos. Acordamos a tempo de ver o sol se pôr e bater a fome. Havia restaurantes no porto, mas se eu descesse a montanha, não subiria nunca mais, era grave.

 Uma senhora nos disse que havia um restaurante mais acima, o que na verdade significava o topo da montanha, alcançado após mais uma importante subida a nordeste. Vesti meu espírito fitness de novo e fui até o topo da montanha vestir meu espírito comilão, até dar de cara com mais uma vista incrível do outro lado da ilha, com pôr do sol e raios muito fashion que sinalizavam uma tempestade.

Encontramos um restaurante também administrado por nativos, nos sentamos e pedimos um chá de canela e uma pizza havaiana. Nos chegou uma pizza de queijo espesso e pêssego - mas na Bolívia tudo é uma caixinha de surpresas, então passamos a noite arrotando pêssegos muito felizes.

Só saímos dali após a tempestade de granito passar e limpar o céu complemente, oferecendo uma das vistas mais inesquecíveis que já vi de uma noite na minha pequena life.

É claro que, para chegar novamente na pousada, tínhamos que descer a serra. Podia ter sido divertido, mas tratava-se de uma descida muito interessante e íngreme, em pedras não confiáveis, mas agora sem a luz do sol. É claro que não havíamos pensado em lanternas. Não havia luz do sol, nem a de holofotes, nem a de porra nenhuma, então nos abraçamos em remorso e confiamos na luz econômica do meu samsumg quase sem bateria que, por sorte, eu tinha colocado na bolsa naquela noite.

Aquilo não tava funcionando, e só porque a vida é bela fomos salvos por um belga chamado Joseph, que percorria a América latina como prêmio após vencer um concurso com este filme lindo sobre os sons da Bélgica. Ele e sua lanterna fantástica nos guiaram até nossa pousada e assim tivemos uma noite incrível de frente pra um Titicaca negro iluminado por uma lua perfeita vista da janela, em cima da montanha gelada. Tentei acordar o marido fotógrafo, mas este sempre foi um feito difícil, portanto, no pics desse momento pra vcs, a não ser esta:

Luz da lua refletindo no Ttiticaca negro
No outro dia, empacotamos tudo, engolimos um delicioso e o único café da manhã da Bolívia que não envolvia apenas manteiga e geleia (<3), e descemos a escadaria em busca de mais aventuras com nosso novo amigo Joseph, que nos contou histórias engraçadas durante o almoço e nossa volta à movimentada Copacabana, onde Vic e eu decidimos passar aquela noite enquanto Joseph seguia para o Peru.

Café na ilha
Joseph e Vic voltando da Ilha pra Copacabana

O quarto no Hotel Mirador era hiper barato (17 reais por cabeça), e entendemos o preço na manhã seguinte, quando fui tomar banho. O tempo era bonito, o clima era frio e a água também. Levou uma hora pra gente conseguir um chuveiro quente, mas a gente sabe insistir, principalmente quando a gente deposita todas as nossas fichas num banho que deveria acontecer ali ou somente dali a dois dias, no Peru (e nós já estávamos há dois sem). YAY!

Vista da janela do Hotel Mirador em Copacabana
Seguimos pro Peru às 14h, após um purê de batatas bolivianas maravilhoso e uma briga fatídica com Vic. Decidi que ficaria o dia todo sem falar com ele fazendo o castigo do silêncio, mas uma hora depois fizemos amizade com um inglês e sua mulher brasileira rarecristina, e não consegui cumprir o meu combinado pois fui obrigada a interagir, eles eram muito legais.

Não me entendam mal: amei a Bolívia do fundo do meu coração de melão e ganhei um respeito ainda maior por aquela cultura, mas vi coisas muito tristes também. A fronteira entre Bolívia e Peru foi uma delas. Era basicamente assim: o motorista do Ônibus nhaca manda você descer, aponta o dedão e manda vc ir pra uma casa velha com dois funcionários muito sérios, que batem o seu carimbão de saída da Bolívia, mas não sem antes montarem uma fila de gringos NA CHUVA. Era humilhante. Os gringos se entreolhavam sem saber se deveriam continuar fazendo fila ensopados ou se buscavam um teto, ignorando o fato do motorista estar nos aguardando com motor ligado para seguir viagem.

Pois bem, após os carimbos, seguimos para Arequipa. A viagem foi um pouco conturbada, o que, mesmo valendo a pena, é outro problema ao topar uma viagem pras bandas de lá. O transporte e as vias de se chegar a qualquer lugar podem ser divertidos, mas podem também não ser. As três janelas do ônibus, bastante velho, estavam fechadas, o motorista se recusou a ligar o ar condicionado pois "gastaria mais gasolina" e eu mal conseguia respirar, acabei passando muito mal e: corta para o momento em que o Victor segura um saquinho pra eu vomitar nele.

Precipícios, velocidade, noite e neve não combinam, mas ali estes elementos andavam juntos, e a sensação, enquanto sacudíamos violentamente de um lado pra outro, era como se estivéssemos tirando a sorte. Se chegássemos ao local bem, estaria tudo bem. ;)

Cenário 2: o motor para de funcionar. Pisca alerta ligado. A luz do interior do ônibus ascende, todos acordam. A neve tá forte, o frio entra, as crianças choram. Eu rezo pra chegar ainda aquela noite, falta apenas uma hora. O motorista está in troubles e não tem ideia do porquê seu ônibus não funciona. Desce o co-pilot, abre a traseira, faz alguma coisa e ZAZ! Motor volta a funcionar, voltamos para a estrada.

Quase uma hora depois, o cenário 3: não neva, há morros, mas não há mais precipício e existem luzes de cidade grande à frente, deve ser Arequipa. Alívio reinando. O motor do ônibus morre de novo. Penso em vomitar novamente, mas me controlo. O co-pilot desce de novo, abre a traseira, faz alguma coisa e nada. Faz mais outra e, 20 minutos depois, consegue fazer o motor funcionar de novo.

E, bem, nem importa. Com as luzes da cidade à frente, a gente tinha certeza que chegaria antes que o motor morresse outra vez. E, se morresse, não teria problema: a gente iria andando. :)

Após um total de 10hs de viagem, alcançamos Arequipa, a cidade mais fofa do Peru. E é claro que o Peru é outra história, fica pro capítulo II (e o retorno ao incrível sul da Bolívia também). <3

Mais fotos aqui.  

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O tal do 2013

Eu não sei exatamente porquê não macatrei sobre o ano de 2012 por aqui, mas assim eu fiz sobre 2011 (aqui e aqui) e agora farei sobre 2013. Talvez eu só trabalhe com números ímpares.

O período durou 365 dias e foi desses onde veio tudo: o noivo do Peru; mudança de casa; viagem-supetão aos EUA e Canadá; um gato pra chamar de nosso, sobrecarga no trabalho, problemas misteriosos de saúde, diagnóstico de estresse e confirmação de que meu corpitcho é frágil e de que o futuro precisa ser reelaborado com base nele também.

Com o noivo peruano, veio muito amor, mas também o retorno da velha ansiedade. A meta era fazê-lo ficar, e, pra ficar, ele teria que ter um trabalho, se adaptar, gostar. Isso levou energia, tanto dele quanto minha, afinal, eu era, em parte, responsável pela adaptação dele na capital federáu do brasíu. Ou eu achava que era, algo assim.

O início de uma vida em dupla também mereceu bastante energia, e eu, tolinha, nem sabia. Estava tão focada no fato de termos vencido a distância e tão afim de namorar 24 horas por dia que esqueci que agora eu era parte de um núcleo familiar novamente. Parece simples, mas mudar horários, formas de administrar a casa, as finanças, a comida, os programas e as prioridades demandam da gente que viveu como solteiríssima por alguns anos. Era o caso dele também.

Soma-se a isso aquela missão citada mais atrás: fazê-lo se adaptar aos costumes daqui, fazê-lo ter contatos, encontrarmos um trabalho pra ele. O tempo se encarregou de encaixar tudo e, até aqui, estamos adaptados e indo bem e já não consigo imaginar uma rotina sem ele. Sigo torcendo para que, a partir daqui, ele siga trilhando seu próprio caminho e que ele nunca se feche.

Tendo isto superado, veio a hora da mudança de casa. Com a ajuda do seu Sebastião, mais conhecido como meu pai, saímos de um apê mínimo e fomos pra um mais confortável. Comemoramos nossos aniversários cancerianos na casinha nova, foi tudo muito gostoso e novo, tivemos muita ajuda e não restaram dívidas.

Não restando dívidas, comecei a pensar no que mais me faltava para ser feliz em 2013. Reivindiquei férias e, após conversinha com a amiga Bolero, resolvi me meter em seu apê de alguns metros quadrados em Montreal, no Canadá, dando aquela esticadinha em NY. Meu leste canadense foi de introspecção, empoderamento, pensamento, imersão. Victor ficou no Brasil trabalhando, eu fui sozinha e lá me meti em vários cantos e momentos e conheci diversas figuras. NY foi disturbing, desafiadora, uma transa rápida e prazerosa. 

Voltei a tempo para receber a sogra e montar um ritual de casamento regado à feijoada pra 10 convidados. Um ritual montado em 3 dias. Louco assim. E, mesmo não parecendo, cansativo também.

Nesse meio tempo as coisas no trabalho foram ficando um pouco confusas. A falta de pessoas e decisões-chave na administração da ONG, a falta de apoio financeiro e a confusão de funções pareciam desestabilizar o barco, que, mesmo assim, hoje segue forte após 37 anos de luta pela saúde pública. Mas, daqui, o corpo cedeu, em uma viagem a trabalho, no Rio. Foram 5 visitas à hospitais por lá e mais umas 10 aqui, até descobrirmos o que se passava. E, por fim, é estresse, é coluna, é vida. A gente vê na vida, a gente vê na TNT.

Abandonei o barco, que precisava seguir com a energia de alguém cheio de energia, e eu já não a tinha. Decidi que ficaria alguns meses sem trabalhar, com a ajuda do companheiro, que me apoiou total e me ofereceu um tempo que jamais achei que pudesse ter tão cedo.

Nesse meio tempo, fui convidada pra um julgamento de planos de comunicação pra uma licitação de um órgão público, conheci pessoas maravilhosas – outras nem tanto. Vi de perto a corrupção, e saí a tempo de seguir com o combinado de passar alguns meses sem estresse, repensando a vida. (Devo retomar estudos pra concurso? Retomar o livro? Me especializar e me tornar uma comunicóloga pedreira? Bleh, é tanta energia pra responder isso que prefiro deixar pra fevereiro).

Para fechar o ano, louco que somos, mesmo só um de nós segurando as finanças, eu e Vic resolvemos nos meter na Bolívia. E aí é uma outra história. 2013 agora é passado, e 2014 precisa vir. Hasta La vista, baber!