sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Do dia em que pensei que não viveria para ver 2012

Ônibus que nos levou a Marcahuasi
Eu sempre gostei dessa coisa de viajar. Pensei que iria fazer isso da vida um dia, mas aí os 23 chegaram, o tempo foi passando, e, você sabe, eu estava mais preocupada em como não fazer a incrível carreira brilhante no Direito que o senhor meu pai imaginou pra mim.

Um dia a amiga disse que iria estudar na Austrália. Mas que tinha medo. Que não queria ir sozinha.

Respondi que ela era uma imbecil. Que medo o meu ovo. Que tinha quem a apoiasse. Que ela não tinha nada a perder.

Três meses depois ninguém foi pra Autrália, mas eu estava na Inglaterra. Com sangue nos olhos e amassando cacos de vidros com a mão direita, percebi que a imbecil era eu, vendi meu uno 2003 cor vinho placa JKR 9999, larguei meu trabalho e fui estudar ingrêis nas gringa. Mentira, eu fugi. Fugi e voltei. Voltei mais quebrada do que quando fui, mas a vida dá certo.

Lá, viajei ainda mais e conheci o projeto couch surfing, que me fez receber gentes de todos os lados, o que me fez conhecer o namorado Peruano, o que me levou pra Marcahuasi no ano novo. Tínhamos outras opções mais razoáveis para a virada, mas escolhemos, de última hora, a mais maluca, que era a de nos enfiarmos nos Andes novamente.

Pois bem. Compramos pães, atum, barraca, acordamos às 5h30 e começamos a contar:

Dentro da rodoviária, aguardando a partida do ônibus
Uma hora de atraso dos coleguinhas; uma hora de táxi, espremendo bunda GG com mais duas tamanho G e outra M; uma hora e meia em uma rodoviária daquelas que o Peru e a Índia sabem te dar, aguardando o veículo lotar (é que, se não lotasse, não saia).

Prossigo: mais duas horas subindo montanhas bonitas, porém muito altas, em um ônibuzinho teco-teco, provavelmente desenhado para anões em 1964, e três horas a cavalo (não tenho orgulho disso) em um background de dar inveja a filme de Hollywood, acima das nuvens, quando dava pra ver (fog).

Melhora.
Vai vendo.

Neblina all over
Chuva rala, frio do tipo zero grau (com graminhas congeladas e tudo). Lama na subida, cavalos escorregando, cavaleiros desesperados, e uma infecção intestinal agravada, pra ficar bonito. 

Mas só chorei mesmo quando o cavalo em que eu montava tentou fazer por conta própria uma ultrapassagem utilizando a força do seu corpo contra o do outro, prensando a minha perna e quase me fazendo cair precipício abaixo. Fora isso, eu tava fina - e pior do que isso não ficaria, certo?

Errado.

Era pra ser duas horas de caminhada íngreme durante a tarde, e chegaríamos antes do pôr do sol. Só que estávamos atrasados e nós não havíamos nos planejado praquilo, nem os amigos do meu namorado. Só sabíamos que tínhamos que subir rápido.

Com o meu estado de saúde piorando, eu e Vic calculamos precisar dos últimos cavalos.  Os amigos dele subiram a pé, carregando seus pertences, e era mesmo a ideia, embora o timing não fosse bom. E eles foram ficando pra trás. Bem pra trás.

Chegada ao afiteatro em Marcahuasi. Céu se abrindo.
Foram três horas a cavalos. Eu e Vic chegamos, montamos a barraca e aguardamos os amigos chegarem. O lugar era espetacular, chegamos no pôr do sol, o horário dos deuses. Pensei que passar a virada com estilo, em um anfiteatro natural, com peruanos amigáveis ao lado, seria só alegria.

O problema é que os amigos dele não chegavam. Quatro horas e meia depois que eles haviam iniciado a caminhada, e 1h30 depois que eu e Vic já haviamos alcançado o acampamento, eu tinha amigos perdidos, dores estomacais,  um rolo de papel higiênico, nenhum banheiro e um namorado preocupado do lado. 

Estava escuro, ele e sua lanterna levaram-me para aliviar minhas dores (não me olhem assim) perto do acampamento, numa moita atrás de uma pedra inca (romântico). Não se via nada e a preocupação com os amigos aumentava.

Minutos depois, um grupo cansado chegou ao acampamento, avisando que eles estavam logo abaixo do casal-de-chapéu-engraçado.  Vic arranjou um local apropriado e bem alto e gritou pelos amigos. Eles ouviram e gritaram de volta, pedindo ajuda. E, você sabe, pedido de ajuda é grave.

Vic me mandou de volta pro acampamento sozinha e vivemos nosso primeiro momento take-my-breathe-away, super vitoriano. Ilustro:

Eu: “Oh, meu grande amor, não se vá. É muito perigoso, não posso te perder”.
Ele: “Oh, amada, eu tenho que ir, pela vida de meus homens. Eles estão sem cavalos. Volte para o acampamento e coloque o restante das roupas para não morrer congelada”.
Eu: “Ok. Saiba que eu te amo. Volte para mim vivo!”
Ele: “Se eu não sobreviver, avise à minha mãe que eu sempre a amei!”

E, bem, foi mais ou menos assim. Minha única fonte de calor estava descendo montanhas e precipícios escuros abaixo e eu juro que temi pela vida dele e dos demais. Pela minha, temi em vários momentos da caminhada, mas, principalmente, quando o frio aumentou durante a noite, invadindo nossa barraca capenga de água e gelando as garrafas de vinho e água que havíamos levado. Tudo bem, eu adoro água gelada.

Vic teve êxito em buscar os amigos. Eles estavam há uns 20 minutos abaixo do ponto de encontro, completamente parados, sem ar (quase 5 mil metros acima do mar), sem condições de andar mais, e precisaram do Vic pra subir com as coisas deles.

Foto tirada às 00h, do nosso acampamento, pelo Goyo
Abatidos, conseguiram se recuperar após um tempo, montaram barracas, e, depois disso, todos nós permanecemos dentro delas, porque não havia vida lá fora. O ambiente era inóspito e frio. 

Tentamos encontrar lenha, mas não conseguimos. Abrimos os vinhos e tentamos nos esquentar. Conseguimos agüentar até meia noite, com a cabecinha pra fora, vendo mil estrelas cadentes - pq o céu abriu, e foi realmente lindo.

Às 1h, satisfeitos com a visão da via láctea, fomos obrigados a fechar as barracas e a rezar para dormir, em razão da preocupação com os graus Celsius dentro e fora. Vic e eu, mesmo juntos, tivemos problemas e pensei seriamente na possibilidade de trazermos o amigo Johnatan para dentro da nossa barraca - mas fiquei com medo de isso caracterizar um equivocado convite para um ménage.

Mais tarde, na manhã do dia 1 de janeiro de 2012, descobrimos que um casal nunca chegou no acampamento.  Beberam e fumaram durante a caminhada, não conseguindo subir os pontos mais altos ao final. Tiveram que retornar para a vila, no escuro, bêbados. Dizem que passaram a virada chorando, descendo montanha abaixo. Para eles, foram quase 8 horas de caminhada no frio. True story.

Acordamos congelados. Não nos movíamos e todos entramos em um silêncio somente quebrado quando o sol veio. E, puta, o sol realmente veio. Tirei duas calças e três casacos e fui arder no sol antes de regressar. Obrigada, Peru.



3 comentários:

  1. MERMÃO.

    Vivi meu dezembro de 2007 outra vez: também no Peru, nas montanhas e com frio.

    Pree, o texto ficou lindo e o diálogo me arrancou risadas altíssimas.

    Espero que essa experiência não tenha lhe causado traumas.

    Parabéns.

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  2. Meu deus!!! Amiga, que aventura louca! Ainda bem que vocês viveram pra ver 2012 :) Bem, foi tenso... mas ter essa história pra contar... bem, vale a pena! rs

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  3. Porra, que experiência do caralho.
    Essas suas idas ao Peru estão te rendendo ótimas vivências. E o melhor disso é que está sempre acompanhada desse belo exemplar de filho dos incas, ou seriam maias, astecas?
    Enfim, adorei o texto. Meus dedim quase congelaram.

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