terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O Peru, o orgulho e as unhas


Então que finalizei o ano convertendo o recesso de natal por férias indeterminadas. Isso se dá porque a empresa onde eu trabalhava, em crise, teve que passar por alguns cortes (300, dizem) e eu entrei na roda. Acabei estendendo meu recesso em Lima por quase um mês, algo que deixou a mim e a meu respectivo muito felizes, já que nos vemos muito pouco devido à geografia.

E aí que a convivência é linda. E difícil, você sabe. Ontem eu quis jogá-lo carpete abaixo – e suspeito que ele também, porque eu tão pouco sou fácil.  Ele se tornou indiferente e dormimos brigados pela primeira vez na vida – o que me deixou sequelas de indignação pela manhã.

Acordei, coloquei minha roupa de corrida (o que é uma mentira, porque eu não corro) e resolvi ter minha primeira experiência solo em solo Peruano (o que também é uma mentira, porque encontrei Esther no meio do caminho e ela me ensinou caminhos).

Decidi que ia sair e subir os Andes sozinha, mostrar para mim mesma que era capaz de viver ali sem ele. Daria um beijo em lhamas, usaria seus cuspes como gosmas curativas, atravessaria as montanhas, alcançaria a selva, falaria a língua dos indígenas que ali viveriam e voltaria pra casa com um lombo saltado nas costas, enquanto ele morreria de preocupação por mim.

Pois então. Saí sem rumo e, no meio dele, decidi que iria fazer as unhas. Era um salãozinho de esquina, próximo à padaria Belém. A senhora me colocou numa caixinha, um quartinho tão pequeno quanto o banheiro dos fundos. Colocou uma mesinha na minha frente, com restos de unhas de outros clientes, e começou.

Descobriu que eu era do Brasil na terceira unha lixada. Eu descobri que ela não sabia fazer unha na quarta. A partir dali, entendi que deveria tomar o momento como uma experiência cultural e comprar algodão e acetona na volta pra casa. Nem reclamei quando ela utilizou um instrumento de tortura para tentar arrancar minhas cutículas, ou enquanto passava o esmalte de forma cuidadosa para não sujar as CUTÍCULAS, deixando as bordas desiguais e não-pintadas.

Enquanto eu achava toda aquela experiência antropológica incrível e resumia as manicures brasileiras a seres muito inteligentes, resolvi que bateria papo. Descobri tudo sobre sua vida, virei íntima e ela me contou de como sua neta de 15 anos estava insuportável e de como a violência em Lima havia aumentado com a desigualdade.
Contei a ela sobre a minha vida e o papo ficou melhor no momento final, quando ela sacou um cotonete maior que meu ouvido para limpar o esmalte que havia escapado da unha. Ali, entendi tudo: ela não sabia fazer unhas e eu estava sendo enganada, mas eles não tomavam aquilo como engano. Eles só estavam fazendo um dinheirinho, porque é assim que é aqui.

Dei um sorriso, pedi licença respeitosamente, pedi um palito de dentes, algodão, acetona e resolvi que iria distraí-la enquanto eu dava mais uma camada de ameixa-estranho para as unhas e as limpava, sozinha.
“Conta-me mais de la vida, Berenice” (era Berenice, seu nome).  Ela contava, parada e consertando o ângulo dos óculos. “Passa-me mais acetona, Berenice”. Ela passava, contando dos últimos assaltos na região e prestando atenção em como eu limpava o esmalte para fazer igual um dia (ela confessou mais tarde, emendando que seu negócio era fazer cabelos, e não unhas). “ Jura? Você foi ótima, mesmo assim. E fica a dica do palitinho, hein, Berenice?!”.
Ela sorriu, toda feliz.
A-do-rei a Berenice. 

5 comentários:

  1. Adorei o texto, alias adoro todos, desde o outro blog.

    Bjs e boas ferias alongadas no Peru.
    Aproveita para contar como foram as "pazes".

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  2. sobre o orgulho de já ter tido tantos blogs e vc acaba de me incentivar a recriar o próximo. Pree, sua linda. Quero saber como foi o retorno pra casa dele einh! =} Aproveite bastante e tire muita foto. bjo bjo bjo
    Polli Di Castro

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  3. Ui! Bad aventury! E você, blazê e política, como sempre! kkk Moral da história: serviu para distrair a mente, né momôre?

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  4. hahah, adorei seu comentário, Clarice!! kkkkk bem assim a minha amiga.

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