sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O cóccix, o ano novo e a moral da história


Como no ano novo em que eu caí de bunda no chão e não me recuperei mais. Faltavam 7 segundos para 2009 e as pessoas, você sabe, faziam a contagem regressiva.

Percebi que muitos dos nativos locais carregavam em suas mãos suas próprias taças, enquanto um macho alfa tão simpático e peludo quanto o papai noel trazia o champanhe.

Com mãos vazias, decidi presentear-me com qualquer espécime de taça também. Não porque pensava que, se eu não brindasse, a fantasia toda de ano novo se evaporaria. É que eu sabia que 2009 seria um ano, assim, ãn, como dizer isso de forma elegante... uma merda difícil. E há de se convir que um drink nessas horas não faz mal a ninguém (dizem).

Pois bem. 31 de dezembro de 2008. Eu tinha acabado de voltar de uma temporada na Inglaterra, com uma mão na frente e outra atrás. Na volta, o que eu tinha eram 30 quilos a mais, um relacionamento de 5 anos terminado, um corte considerado ainda masculine, um bilhete velho do metrô de Barcelona no bolso, um ticket de entrada para o meu processo de choque cultural reverso e alguma sutil vontade de culpar o mundo por aquilo que não estava dando exatamente certo.

Eu sabia que não poderia passar minha maturidade culpando pessoas e a mim pelas escolhas que havia tomado até ali. 2009 seria, então, um ano lendário, de dietas (eu imaginava) e tomada de decisões próprias, cujas conseqüências seriam de responsabilidade minha - e só minha.

Já tinha 25 anos, era uma decisão difícil, mas o primeiro passo deveria ser, provavelmente, recomeçar toda uma vida acadêmica e garantir um outro canudo - isso era tudo o que eu sabia até ali.

Em um salto de dignidade, corri. Em busca da taça, digo. A contagem já tinha chegado ao número 7. No momento em que meu pé direito encostou em uma pequena camada de água que pairava sobre o chão próximo à piscina, configurando aí um um fenômeno chamado aquaplanagem, a minha vida mudou. 

Os nativos locais pararam a contagem para o meu resgate, e, assim, o novo ano entrou. A queda  fez com que meu cóccix nunca mais fosse o mesmo, e que o episódio da barata que minutos antes havia subido na minha perna, por dentro da minha calça, fosse esquecido.

Mas o importante é a simbologia do momento, crianças - vamos lá com a titia, sem perder o foco: alguns segundos após me espatifar no chão e ganhar um cisto pilonidal, recomeçamos. Me levantaram, me deram uma taça, e todos reiniciamos uma contagem ficticiosa, fingindo ser ainda 2008, enquanto os fogos dos vizinhos já ensurdeciam e atestavam o 2009.

Descobri ali que o tempo nem sequer existe no ano novo e que tudo sempre continuaria igual. Alguns brindariam a entrada de mais um ano; alguns brindariam algo que nem sequer sabiam, e por isso temiam.  É que a nossa espécie, antiga herectus, desde a teoria cosmológica do Big Bang - ou da arca do tio Noé -, tem medo do movimento, pra esquerda ou pra direita, que pode mudar tudo. Medo do novo. Ou medo de tudo continuar igual. 

Depois que sobrevivi a 2009, criei ganas de achar que sempre é hora pra big bangs. À medida que você vai absorvendo isso de verdade, essa coisa do medo vai ficando meio pequena e mais rápida, ganhando mais cara de aventura, andança, história sendo escrita, sem grandes subjetividades.

E a moral da história – prestem atenção – é menos profunda do que parece: o que eu queria mesmo dizer com tudo isso é que meu cóccix dói.  Simples assim. Há 7 segundos da passagem de two thousand eight para two thousand night tudo mudou e hoje, há pouco mais de 30 horas da passagem de 2011 para 2012 (dependendo da sua posição no globo terrestre), tudo continua o mesmo lá nas áreas baixas, entre os glúteos, dependendo da posição deles.

Existem coisas que mudam para nunca mais mudarem. Supere, porque pouca gente é vítima da sua própria história e, no fim, a maioria de nós sempre acha o que procura. Eu procuro um anti-inflamatório, champagne e um novo emprego.

E feliz ano novo pra você também! 

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E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, amo os abismos, as torrentes, os desertos. Ide! Tendes estradas, tendes jardins, tendes canteiros, tendes pátria, tendes tetos, tendes regras e tratados, e filósofos, e sábios... Ah, que ninguém me dê piedosas intenções, ninguém me peça definições. Ninguém me diga: ‘vem por aqui!’ Não sei por onde vou, não sei para onde vou, mas sei que não vou por aí!” (José Régio)

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