segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A invasão russa

Não é que passei muito tempo fazendo tudo errado. Foi desconstrução, confusão, caos. Caos gostoso, líquido, aquele que avisa das mudanças. Então fugi pra Queen’s Park, voltei sabendo menos ainda, mas a vida acontece. Já havia entendido que a busca é tentar mais leveza nessas transições, mas tinha esquecido.

E, enquanto espremia minhas espinhas das costas com unhas sujas de uma só mão, pensando em entrar pra yoga pra curar as ansiedades, a amiga russa que fala português e mora em Florianópolos me telefonou. Dizia que viria passar uns dias para negócios, coisa rápida, e que ficaria comigo.

A busquei no aeroporto, a deixei em uma linha de metrô e ela seguiu para ter com o milionário e fazer negócios russos esquisitos e grandes que cheiravam a máfia russa em um hotel. Ela nunca mais saiu do hotel e nem usou meus lençóis novos.

Mas me visitou 4 noites depois, porque o milionário armênio, a quem ela prestava serviços 24 horas de tradução para os tais negócios esquisitos, queria beber e sair do hotel pelo menos uma vez em sua estadia no cerrado. Era uma desculpa para nós duas nos vermos, enfim, e botarmos a vida em dia, digo.

Esqueci de dizer que era uma terça-feira, às 00h30, em Brasília, quando todos saímos do quarto de hotel número 42 e entramos no meu carro.
A ideia era que eu os levasse pra sair às 22h, os bares legais ainda estariam abertos na capital da lei seca a essa hora, mas milionário que é milionário faz pessoas esperarem. Ele me fez esperar 2h30 no quarto de hotel que eles usavam como escritório, para resolver sua vida de negociante excêntrico armênio esquisito, botar aquele cinto no meio do tórax e o casaco branco muito grande e kitch, e descer. "Não tava encardido", pensei. Pensei também em quem lavaria as roupas de um milionário. Mmmm.

Voltando.

Não nos sobraram muitas opções de entretenimento àquela hora. Uma delas era levar os caras pro Lago Paranoá e esperar um barco clandestino passar com drinks ilegais. Ao invés disso, botei a amiga e o milionário armênio dentro do meu carango 2003, junto com a amiga neta de condessa polaca dele (lôra, 50 anos, robusta, vestindo um longo vermelho e um salto alto, falava spanish).

Avisei antes que não haveria um local aberto após 1h, na tentativa de forçar uma desistência e a hipotermia, mas eles insistiram na aventura. Ok, tudo pela amiga. Rodei com eles próximos ao hotel, parei numa favela, me perdi, voltei, frio, não achamos nenhum estabelecimento aberto próximo.

Ele queria ver mulheres e achar um bar chique. Eu devia tê-lo levado pra um puteiro de luxo, mas como não conheço dessas coisas ainda, os levei pra minha casa, único lugar aberto às 1h35. Antes, passei num mercado 24 horas barato. Ele não torceu o nariz nenhuma só vez e nos comprou vinho, milho, azeitona e queijos caros, nessa ordem.

Minha vizinhança, como sabem, é hostil. Bêbados gritam às 2h. Os prédios tão ainda na cal. Confesso que eu também estava preocupada com a lembrança de ter visto, ao sair mais cedo de casa, uma barata morta perto da porta do vizinho ao lado. Tava envergonhada e sem copos de vinho, mas já era tarde, tudo foi acontecendo (sei lá como) e aconteceu: milionário sentado no puf, a filha de condessa se embebedando de vinho e falando sobre como aquele teria sido o melhor momento deles em Brasília. A amiga fez o papel de tradutora, arranhei mil espanhóis com a neta de condessa e viramos todos melhores amigos.

Elas vão agora criar um facebook para nos adicionar.

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