sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O cóccix, o ano novo e a moral da história


Como no ano novo em que eu caí de bunda no chão e não me recuperei mais. Faltavam 7 segundos para 2009 e as pessoas, você sabe, faziam a contagem regressiva.

Percebi que muitos dos nativos locais carregavam em suas mãos suas próprias taças, enquanto um macho alfa tão simpático e peludo quanto o papai noel trazia o champanhe.

Com mãos vazias, decidi presentear-me com qualquer espécime de taça também. Não porque pensava que, se eu não brindasse, a fantasia toda de ano novo se evaporaria. É que eu sabia que 2009 seria um ano, assim, ãn, como dizer isso de forma elegante... uma merda difícil. E há de se convir que um drink nessas horas não faz mal a ninguém (dizem).

Pois bem. 31 de dezembro de 2008. Eu tinha acabado de voltar de uma temporada na Inglaterra, com uma mão na frente e outra atrás. Na volta, o que eu tinha eram 30 quilos a mais, um relacionamento de 5 anos terminado, um corte considerado ainda masculine, um bilhete velho do metrô de Barcelona no bolso, um ticket de entrada para o meu processo de choque cultural reverso e alguma sutil vontade de culpar o mundo por aquilo que não estava dando exatamente certo.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Fala-se Spanglish


Eu tenho um namorado peruano. Você sabe, do tipo que nasceu no Perú. Nos conhecemos através de um projeto chamado Couch Surfing, onde, basicamente, mochileiros se hospedam na casa de pessoas como eu, que recebem mochileiros.

Eu não sabia falar espanhol, ele tão pouco sabia falar português. E, para aqueles que pensam que são línguas parecidas, é verdade: elas são. Mas, para dois recém-namorados que precisavam desesperadamente verbalizar personalidades atraentes na tentativa da conquista e do êxito do acasalamento, as línguas-mãe e seus falsos cognatos não funcionavam.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O Peru, o orgulho e as unhas


Então que finalizei o ano convertendo o recesso de natal por férias indeterminadas. Isso se dá porque a empresa onde eu trabalhava, em crise, teve que passar por alguns cortes (300, dizem) e eu entrei na roda. Acabei estendendo meu recesso em Lima por quase um mês, algo que deixou a mim e a meu respectivo muito felizes, já que nos vemos muito pouco devido à geografia.

E aí que a convivência é linda. E difícil, você sabe. Ontem eu quis jogá-lo carpete abaixo – e suspeito que ele também, porque eu tão pouco sou fácil.  Ele se tornou indiferente e dormimos brigados pela primeira vez na vida – o que me deixou sequelas de indignação pela manhã.

Acordei, coloquei minha roupa de corrida (o que é uma mentira, porque eu não corro) e resolvi ter minha primeira experiência solo em solo Peruano (o que também é uma mentira, porque encontrei Esther no meio do caminho e ela me ensinou caminhos).

Decidi que ia sair e subir os Andes sozinha, mostrar para mim mesma que era capaz de viver ali sem ele. Daria um beijo em lhamas, usaria seus cuspes como gosmas curativas, atravessaria as montanhas, alcançaria a selva, falaria a língua dos indígenas que ali viveriam e voltaria pra casa com um lombo saltado nas costas, enquanto ele morreria de preocupação por mim.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A invasão russa

Não é que passei muito tempo fazendo tudo errado. Foi desconstrução, confusão, caos. Caos gostoso, líquido, aquele que avisa das mudanças. Então fugi pra Queen’s Park, voltei sabendo menos ainda, mas a vida acontece. Já havia entendido que a busca é tentar mais leveza nessas transições, mas tinha esquecido.

E, enquanto espremia minhas espinhas das costas com unhas sujas de uma só mão, pensando em entrar pra yoga pra curar as ansiedades, a amiga russa que fala português e mora em Florianópolos me telefonou. Dizia que viria passar uns dias para negócios, coisa rápida, e que ficaria comigo.

A busquei no aeroporto, a deixei em uma linha de metrô e ela seguiu para ter com o milionário e fazer negócios russos esquisitos e grandes que cheiravam a máfia russa em um hotel. Ela nunca mais saiu do hotel e nem usou meus lençóis novos.

Mas me visitou 4 noites depois, porque o milionário armênio, a quem ela prestava serviços 24 horas de tradução para os tais negócios esquisitos, queria beber e sair do hotel pelo menos uma vez em sua estadia no cerrado. Era uma desculpa para nós duas nos vermos, enfim, e botarmos a vida em dia, digo.

Esqueci de dizer que era uma terça-feira, às 00h30, em Brasília, quando todos saímos do quarto de hotel número 42 e entramos no meu carro.