sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Carta à Penélope e aos sujeitos que a abraçam

Foto: Jacqueline Lisboa
Minha filha (eu tenho uma filha, que loko mano) completará 2 anos no próximo mês, e já comecei a nostalgiar.

Nesse processo, quis dividir aqui a cartinha que li pra ela em seu primeiro parabéns, lá em março de 2016.

Foi um dia muito especial e chuvoso, montado por mim e pelo pai dela após um mês de recorta e cola, onde recebemos nossa família e alguns poucos amigos, que compartilharam com a gente do momento emocionanthy.

26/03/2016
 
“Nós mesmos, eis a grande questão da viagem. Nós mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas, em realidade, só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre é suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma existência inteira, às vezes. Quantos desvios e por quantos lugares antes de nos sabermos...”, diria Onfray.

Eu e seu pai demos mais de 30 voltas ao nosso mundo. Conhecemos amigos, montanhas nevadas, felinos fofos, plantas esquisitas, vulcões, alho assado e até o mar Egeu. Nada nos trouxe tão a nós mesmos como você. E, em vários níveis, também nos trouxeram o espelho cada um dos que estão aqui presentes, hoje comemorando com a gente sua primeira volta ao seu próprio mundo.

Sua volta ao mundo, filha. Mundo grande, que exige da gente alguma fé, sorriso para sorrir e fazer sorrir, ombro pra acolher o chorar – inclusive o teu próprio chorar –, e alguma força pra seguir no ciclo quase eterno entre o cair e o levantar. É um ciclo dado, a vida é assim. E, nela, o tempo é amigo, a paciência é o caminho e a tolerância é a resposta. Sigo pensando em seu futuro e desejando boas estradas e boas vindas por onde quer que você chegue.

Hoje amanheci querendo gritar pro mundo que te seja gentil. Lembrei do que gostaria de te dizer, quando você tiver idade x. Queria dizer pra ir por aqui, e não por ali. Dizer-te tudo o que eu queria que escutasse, e que meus pais  tentaram me dizer. Em resposta a eles, na época, citei José Régio: “não sei por onde eu vou, não sei para onde vou, só sei que não vou por aí!”.

Será que você me dirá o mesmo? Escolhi imaginar que talvez sim, já que não controlamos nada. E, se assim for, antes disso, tomo minha chance de registrar tudo o que eu pensei em te dizer:

Pensei: Coragem, Penélope! Que suas estradas sejam cheias de verdade, experiências, aventuras e também tranquilidade. Que a ansiedade não te tome e ao seu tempo. Que, quando ela vier, você possa se lembrar que não controlamos nada e respirar. Que você ame muito a si mesma e ao outro, exatamente como você é, e como eles são. Seu corpo é seu maior instrumento em vida. Ame cada parte dele. Celebre-o!

Consciência. Consciência para manter-se segura em montanhas perigosas. Olhe bem por onde anda, não aceite doces de estranhos.

Seja gentil. De verdade.
Proteja quem não tem proteção.
Cuide de quem precisa de cuidado.
Cuide de você, antes.

Eu queria mesmo é te citar uma palavrinha do Bukowski, mas achei inapropriado para a ocasião. Então vou direto ao ponto: quando tudo der errado e o pulmão falhar, recorde que “por mais que você não queira, o ar entra e sai; o sangue circula, o coração continua batendo; as pálpebras abrem; os pássaros, desaforados, insistem em cantar”. Li essa frase em um site que falava sobre uma moça chamada Renata que descobria a expressão Ubunti. Significa “eu vivo em você, você vive em mim”. Bonito, né? É assim que sempre será entre nós, até mesmo quando não existirmos mais.
Foto: Jacqueline Lisboa
E, bem, hoje é dia de festa. Eu esperei chuva. Será que choveu? Os rostos de quem esteve com a gente durante esse um ano enquanto pais estão aqui. Eles nos olham enquanto digo tudo isso em voz alta, talvez já “alta”, e, como já tem algum tempo que estou falando, sinto que devo ser menos preelixa.

Vou fechar:
Parabéns, minha peruaninha, pelo seu primeiro aninho de vida. Foi o ano mais intenso, insano e maravilhoso da minha vida e eu sou muito grata pela tua vinda. Passou rápido, já sinto saudades do ontem, e sei que o amanhã vem logo. Que venha. E que sejamos teu abraço, teu porto, tua ponte, teu lar. Viva muito, viva pra sempre.

Mamãe Pree Leonel

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Meu querido diário,

Faz tanto tempo que não venho aqui, néam? Acho que meus leitores acham que eu fui embora e esqueci de apagar a luz. Mas foi diferente: eu dei a luz. Dar a luz é cansêra, mermãos, mas já tou até conseguindo animar de fazer uns planinho pro futuro.

Eu costumava fazer listas de metas pro ano seguinte quando ia chegando a virada do ano, mas nunca deu certo. Não fiz lista alguma nos últimos anos e também não deu certo, portanto, WHATEVER, WHATTHEFUCK eu voltarei a fazer listas porque fazer lista é legáu demais, dá um tremilique no coração e parece que a coisa VAI, mesmo que não vá e vc termine o ano na merda.

Metas pra 2017

Ir de bicicleta pro trabalho ao menos 2x por semana
Me organizar
Estudar
Editar vídeos lindos sobre a vida
Ler dois livros incríveis
Aprender a cozinhar pratos muito saudáveis

PRONTO.
Tá singelo, não tá?
WISH ME LUCK.

(sim, é só isso)

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

De volta ao passado I

Vocês sabem: antes de ficar grávida, eu tinha outra ideia do que estaria fazendo em 2015. Provavelmente, trabalhando além do horário, bebendo dois copos de vinho por noite, e pensando sobre decisões que eu precisava tomar e na disciplina que eu deveria ter para conquistar x ou y.  

Tudo matutado e procrastinado enquanto o efeito do vinho e o episódio do próximo seriado meia boca se apresentavam à minha frente.

Também estaria planejando uma viagem nostálgica de retorno à Londres - viagem que aconteceria ao fim do meu contrato de trabalho, sim ou sim, BUT NOT.

O script me trolou: vivi uma gravidez-surpresa, pari uma bebê linda, tive um puerpério de lascar, e fui muito feliz e ocitocinada pra sempre. Larguei as noites de vinhos e seriados por um tempo. Só não me escapuliu a vontade de viajar.

Quando Penélope completou dois meses, uma frase, vinda de uma amiga, ecoou algum tempo na minha cabeça: “é melhor viajar com ela enquanto ela tá bem pequena, depois fode”.

“Balela” – concluí. Parecia complicado demais.

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Eu morei em Londres em 2008. É claro que, quando vc mora num outro lugar, vc leva consigo todo o tipo de memória. Eu tinha recordações aos montes, até pq a viagem modificou minha vida.

Desde que voltei, há 7 anos, sonho com as ruas decadentes de lá. Há uns 3, a vontade de voltar e rever todos e tudo ficou mais latente. Uma semana antes de saber da gravidez, já comovida pelos hormônios, chorei após um desses sonhos e bati o martelo: mandei avisar à terra da rainha que, na metade de 2015, eu estaria lá, enfim.

Após isso, descobri que esperava um nenem e blá blá blá. Tem um enredo. Em algum momento dele, me senti verdadeiramente conformada em não fazer a viagem. E, após nascimento da baby, me sentia ocupada e feliz.

A bebê estava prestes a completar quuatro meses. Minha licença maternidade estaria finalizada em dois. Eu tinha organizado bem as finanças durante todo o ano e me sobrava uma graninha. Minhas próximas férias seriam obrigatoriamente usadas pra apresentar a bebê pra família peruana, não rolava de ir pra Inglaterra E EI, O QUE É QUE TA ACONTECENDO O QUE É QUE EU AINDA TOU FAZENDO AQUI?

Foi num segundo que tudo aconteceu. Me dei conta de que, ou eu iria pra Londres nos últimos dois meses de licença que me restavam ou eu NÃO IRIA AT ALL. O pacote tempo + dinheiro hábil não se apresentaria tão cedo novamente. Seria missão impossível, tipo pegar ou largar. Do contrário, enterraria perspectivas realistas de fazer, nesta década, minha viagem de volta à capital inglesa.

Pois bem, o desafio tava dado. Olhei pra minha filha, ela olhou pra mim. Ela não entendeu nada, eu captei tudo. Comprei as nossas passagens 5 dias depois. Meu companheiro não iria, estaria trabalhando, eu era oficialmente maluca. Esticaria a viagem a Portugal e Bélgica, pra visitar mais queridos, e fecharia aquilo de um jeito meio doido, mas memorável.

Felicidade, ansiedade, preparação.
Volto pra falar das viagens após algumas mamadas.